Boas-vindas a mais uma entrevista do projeto Perfil de Autorias do Escrever Literatura! Hoje, exploramos a jornada criativa de Anderson Bandeira, que compartilha os bastidores da sua escrita, processos de planejamento e reescrita, maiores desafios e visão sobre o mercado literário independente.
Aos 40 anos, Anderson escreve desde o início da adolescência — tendo estreado nos idos de 1998 com uma fanfic de Resident Evil, época em que o termo [fanfic] sequer era popular. Formado em Hotelaria, estudou Produção Audiovisual por dois anos na PUCRS e integrou a primeira turma de graduação em Escrita Criativa do Brasil, na mesma universidade, em 2016. Pai dedicado e presença ativa no Instagram (@autorandersonbandeira), ele navega pelos gêneros da ficção científica, distopia, suspense policial e thriller. Atualmente, dedica-se ao projeto AF/EA (título provisório), uma distopia sci-fi com forte pegada policial noir, repleta de mistérios e conspirações em torno do desaparecimento de uma talentosa cientista.
Confira a entrevista completa abaixo!
Autenticidade
Escrever Literatura: Em um mundo com cada vez mais rótulos literários, reciclagem de ideias e livros vendidos com dinâmicas já prontas, como você torna sua própria escrita autêntica e que conselho daria a outras autorias que também buscam autenticidade?
Anderson Bandeira: Sendo bem sincero, eu ainda me vejo como um autor em formação, então talvez ainda não seja tão autêntico assim, no sentido de criar uma narrativa realmente fora da curva. Mais do que autenticidade, vejo, na minha escrita, identidade e coerência. Meu projeto atual, por exemplo, tem um tom bem definido, estrutura em três atos, enfim, nada revolucionário. A força dessa história, na minha visão, está mais nas minhas protagonistas do que na forma narrativa. Acho difícil encontrar uma obra realmente autêntica ou inovadora hoje em dia. A gente vem de mais de um século sendo alimentado pelo entretenimento de massa, com a ascensão do cinema, TV, séries, quadrinhos, música e das próprias plataformas digitais, que transformaram nossa relação com tudo isso. Toda essa bagagem cultural é, em algum nível, inerente a cada artista. Por mais que você queira ser 100% autêntico, essa bagagem está no inconsciente, e ela vai pingar na sua obra de um jeito que talvez você nem perceba de primeira. A verdade é que existem infinitas maneiras de se contar uma mesma história, e isso acontece porque, além dessa bagagem cultural, cada autor tem sua individualidade, seu contexto social, familiar, experiências de vida, e é isso que torna cada história única. Quanto ao conselho, são dois. Primeiro: ler, ler, ler muito, diferentes gêneros, de diferentes épocas, das mais variadas culturas. Segundo: escrever e experimentar. Se desafiar com gêneros fora daqueles a que está acostumado. Testar novos formatos. Está acostumado a escrever narrativas longas? Escreva um conto. Só escreve terror? Arrisque um romance. E por aí vai. É um conselho que eu mesmo ainda não estou conseguindo seguir por conta da produção de AF/EA, mas já tenho uma história engatilhada para ousar mais narrativamente no futuro.
O peso das narrativas lucrativas
Escrever Literatura: Existe uma pressão brutal para criar narrativas dentro do que o mercado dita como lucrativo. Em algum momento da sua jornada, você já cortou um tema ou alterou o curso de uma história puramente pelo medo dela não vender? Como lida com essa questão em suas obras?
Anderson Bandeira: Não cortei. AF/EA, meu projeto atual, foi escrito justamente para instigar, provocar e alertar. É uma história com gatilhos importantes, com os quais estou tendo o maior cuidado na reescrita. São muitos temas sensíveis, tanto individuais quanto coletivos, e é preciso ter responsabilidade na hora de falar sobre eles. Até o momento, o único retorno que tive foi o da profissional que fez a leitura crítica do meu manuscrito, a Ka Moura, da Kasa Editorial, e sim, há pontos a serem mais bem trabalhados. É isso que estou fazendo nesse ponto da produção. Não há uma necessidade explícita de cortar cenas, mas sim de mudar a abordagem em alguns pontos, sem perder a essência daquilo que eu estou propondo. Vejo esse cuidado como indispensável. Vivemos numa era de ódio, principalmente às minorias, e eu não quero me sentir responsável por alimentar isso com as minhas obras sob nenhuma hipótese.
O sucesso alheio e a frustração
Escrever Literatura: Ao ver uma obra que você julgou ser tecnicamente mediana (ou até ruim) alcançar um sucesso estrondoso de público, como você se sentiu sobre sua escrita e o mercado? Como lidar com esse sentimento?
Anderson Bandeira: Às vezes, eu tenho a sensação de que grande parte das obras de sucesso alcançam esse posto justamente por não tentarem ser mais do que são. Vejo muitas autorias se rendendo às tropes do momento por isso, porque são as que têm mais apelo comercial, as que viralizam nos reels do Instagram e no TikTok. Eu jamais vou querer ditar o que alguém deve escrever ou ler; não vejo nenhum problema nessas obras, elas também têm seu público e precisam existir por conta disso. Obras assim, muitas vezes, são portas de entrada para novos leitores, que eventualmente podem se interessar por leituras mais profundas e complexas a partir delas, e isso é maravilhoso! Quanto a mim, que escrevo um dos gêneros mais marginalizados da literatura, a ficção científica, sei que é bem mais difícil alcançar um público de massa (ainda que não impossível). Por outro lado, a comunidade de fãs, autores e leitores de sci-fi é muito ativa e unida. Existe toda uma rede no submundo do algoritmo que me dá força e esperança para seguir acreditando na minha escrita e no que eu quero comunicar através dela.
O mito das regras inquebráveis
Escrever Literatura: Qual foi o conselho literário mais aclamado que você tentou aplicar, apenas para perceber que era uma grande armadilha para o seu processo?
Anderson Bandeira: “Você precisa planejar toda a história antes de começar a escrever”. Seguindo esse conselho, eu fiquei praticamente um ano inteiro só planejando. Foram dois planejamentos completos de histórias que acabaram descartadas por não funcionarem na prática. Eu sou bem metódico, mas quando percebi que não ia dar certo, fiz diferente: comecei a planejar de cinco em cinco capítulos. Planejava e escrevia, planejava e escrevia. Assim funcionou melhor, porque eu não ficava com aquela ansiedade de não estar avançando. Quando mandei o manuscrito para a Kasa Editorial para a leitura crítica, comecei a planejar a sequência de AF/EA (que será uma trilogia), e aí, com a experiência do primeiro livro, consegui planejar do início ao fim em cerca de três meses, sem grandes problemas.
O problema inverso à síndrome do impostor
Escrever Literatura: Em qual momento a teimosia, o excesso de confiança ou o apego à sua genialidade quase arruinou um manuscrito ou te distanciou do seu objetivo?
Anderson Bandeira: Quando eu recebi o relatório da leitura crítica. Porque eu tinha uma ideia de que a obra estava “praticamente pronta” quando enviei para a Ka, e quando eu vi todos aqueles apontamentos e comentários, foi um balde de água fria. A esperança de publicar em 2026 se desfez em segundos, e lidar com a frustração não foi fácil no início (recebi o relatório em agosto). Cenas ou frases que eu achava geniais ou às quais tinha certo apego foram criticadas, e isso mexeu com meu ego, sim. Mas, no fim das contas, que sentido teria uma leitura crítica sem críticas, não é? Depois que passou esse primeiro impacto, passei a olhar o relatório pelo que ele é de fato: uma oportunidade de entregar uma história ainda melhor para quem vai ler o livro. Desde então, venho trabalhando na reescrita com esse objetivo.
O medo do julgamento moral
Escrever Literatura: Em uma era em que uma autoria frequentemente é punida pelas atitudes de suas criações, você já puxou o “freio de mão” no desenvolvimento de uma personagem, deixando de explorar suas piores falhas morais, por medo de sofrer a antipatia moral do público? Ou seguiu em frente, mesmo com esse temor?
Anderson Bandeira: Realmente, existe esse receio. Muitos leitores não conseguem separar, por exemplo, a visão de um antagonista, que faz e expressa coisas terríveis, do autor que o criou. Acreditam que a visão desse personagem é a visão do próprio autor, quando, na maioria das vezes, é exatamente o contrário. O mesmo pode acontecer quando uma protagonista se mostra imperfeita e toma decisões questionáveis ao longo da história, pois muitos leitores entram nela com aquela ideia pré-concebida do herói hollywoodiano que é praticamente a representação de um deus. Particularmente, acho esse tipo de personagem bastante chato. Minhas personagens favoritas têm camadas, falhas, arrependimentos, segredos e contradições. As protagonistas do meu projeto são assim, cada uma ao seu jeito, e isso me trouxe, sim, preocupação ao longo da escrita. Personagens assim exigem responsabilidade na forma como se vão apresentar essas características, de modo a não desrespeitar quem porventura se identifique com elas, e até mesmo para não cair na armadilha da caricatura e acabar enfraquecendo a própria personagem. Pude ver isso claramente no relatório de leitura crítica do meu manuscrito. Os apontamentos que a Ka me fez com relação a isso estão muito mais na forma do que no conteúdo em si, então agora é tudo uma questão de ajuste, sem necessariamente precisar “puxar o freio de mão”.
O choque de realidade
Escrever Literatura: Qual foi o choque de realidade mais frio que estilhaçou a visão idealizada que você tinha da profissão de escrita?
Anderson Bandeira: Acho que o mercado com mais alcance, das grandes editoras, das médias e até de algumas pequenas, mas relevantes, ainda é muito fechado. A famosa panelinha me parece que existe, sim; você tem que de alguma forma entrar no círculo, mas é difícil encontrar a brecha. Felizmente, a comunidade independente está cada vez mais fortalecida, com MUITA gente talentosa publicando por conta própria nas plataformas de leitura, se apoiando, divulgando os colegas, espalhando conhecimento. A colaboração e a parceria aqui são muito maiores do que as vaidades, e talvez esse seja o nosso diferencial. E que bom que é assim.
A relevância do ofício
Escrever Literatura: Nos seus dias mais exaustivos, quando o mundo parece maior que os seus sonhos e a profissão soa como uma perda de tempo, o que te convence a continuar escrevendo?
Anderson Bandeira: Hoje, a escrita é tudo para mim. Desde quando a necessidade de retomar a escrita surgiu, depois de anos sem produzir nada, desde os primeiros rascunhos do planejamento de AF/EA, não teve um dia sequer em que eu tenha considerado desistir. Essa história me deu um propósito para seguir em frente quando eu estava no fundo do poço, após uma série de episódios que me levaram a quatro internações psiquiátricas em cinco anos. Foi no que eu me agarrei. Além disso, tem minhas protagonistas. Eu firmei um pacto com elas, de que o mundo conheceria suas histórias e de que elas viveriam para além da minha própria cabeça. Não vou parar até cumprir essa promessa, por elas, mas também por mim e pelo meu filho, meu outro compromisso, e que também é a razão disso tudo.
Um pequeno dilema
Escrever Literatura: Se hoje você recebesse a garantia absoluta de que a história que está escrevendo agora venderia no máximo 50 cópias e não lhe traria um centavo de lucro ou fama, você ainda assim sacrificaria seus finais de semana e noites de sono para colocá-la no mundo?
Anderson Bandeira: Sem dúvida alguma. Pelo mesmo motivo da resposta anterior. Mais do que fama, dinheiro e seguidores, é por mim, pelas minhas protagonistas e pela promessa de permitir que outras pessoas conheçam suas histórias. É pelas conexões que a escrita me trouxe, pelas amizades que estão ansiosas pelo livro, é para acreditar que a vida segue valendo a pena apesar de todas as dificuldades. Isso é e sempre vai ser o mais importante.
A busca por conexão
Escrever Literatura: Qual foi a surpresa mais bonita ou o momento de alegria genuína que a sua própria história te proporcionou durante o processo criativo, fazendo você ter a certeza de que todo o seu esforço vale a pena?
Anderson Bandeira: Ah, quando eu concluí o manuscrito! Imagina, foram cinco anos de trabalho intenso, diário, desenvolvendo aquele universo, dando vida às personagens que eu amo mais do que eu consigo explicar. Mesmo sendo só o manuscrito e com a consciência de que eu estava muito longe da publicação, aquilo já foi a realização de um sonho. Não importava o que viria depois, o primeiro passo estava concluído. Acho que vou sentir isso quando terminar os passos seguintes, um por um, até chegar no clímax do lançamento.
O agora
Escrever Literatura: Qual sua opinião sobre o momento atual do mercado literário e editorial? Quais seus maiores incômodos ou esperanças?
Anderson Bandeira: Eu vejo a literatura independente ganhando um espaço importante, principalmente nas redes sociais e plataformas de leitura, possibilitando que mais autores tenham acesso à publicação. Se as grandes editoras continuam majoritariamente interessadas em best-sellers estrangeiros em detrimento das autorias nacionais, a gente contorna isso trabalhando em rede, com apoio mútuo, parcerias de divulgação, clubes de leitura coletiva, etc. Muitas editoras independentes, menores e mais nichadas, também estão surgindo, e são essas as que mais apostam em quem ainda está buscando seu espaço. De um modo geral, sinto que o mercado independente ainda não alcançou todo o potencial que pode alcançar, mas está no caminho. É cada vez mais comum a gente ver autorias independentes ganhando projeção, prêmios, muitas delas conseguindo furar a bolha do mercado editorial tradicional e até mesmo expandindo seus universos para outras mídias e plataformas. Isso é importantíssimo para manter a chama acesa, é o que me dá força para seguir lutando, me desenvolvendo e acreditando que a publicação não é só um devaneio ou um sonho bobo, mas uma realidade plenamente acessível, não só para mim, mas para qualquer um que compartilhe do mesmo sonho.
Sua luta política
Escrever Literatura: Considerando as problemáticas recentes com a ascensão global de discursos de ódio contra minorias e grupos sociais, a urgência de escoamento da injustiça invadiu a arte de forma significativa. Você já sentiu a necessidade de alterar uma narrativa, o destino de um personagem ou o tom de uma obra especificamente para combater ou evitar alimentar narrativas extremistas do mundo real? Como você equilibra a sua liberdade criativa com a sua bússola ideológica?
Anderson Bandeira: Esse é um ponto fundamental para mim, porque o projeto AF/EA é uma obra bastante crítica e política. É uma história que surgiu justamente da raiva que eu sentia pelo que estava acontecendo no mundo, lá em 2020, com todo aquele contexto da pandemia, do antigo governo, a ameaça do fascismo nos assombrando outra vez. Foi a maneira que encontrei para não sucumbir diante das notícias que me atingiam dia após dia. Temas como o patriarcado, guerras, abuso de poder e corrupção permeiam toda a narrativa, e é preciso, sim, tomar muito cuidado ao tratar desses temas para evitar espetacularizações ou reforçar estereótipos ligados a determinados grupos (algo muito presente também na obra através das protagonistas). Esse é, sem dúvida, um dos principais pontos de atenção na reescrita atualmente, para que eu possa dar voz a essas questões sem me perder na minha revolta e acabar alimentando justamente aquilo que eu quero combater.
Considerações finais
Escrever Literatura: Quais suas palavras finais que gostaria de deixar registradas aqui?
Anderson Bandeira: Ah, quero e vou agradecer eternamente ao Escrever Literatura pelo convite. Foi uma surpresa incrível quando recebi a mensagem na DM, a poucos dias do meu perfil de autor no Instagram completar um ano no ar. Foi realmente especial, emocionante e bem inesperado! Não só pelo convite, que foi uma honra e fez um bem danado para o meu ego (rs), mas porque eu interpreto isso como um sinal de que estou no caminho certo. Vocês vieram até mim por acompanhar meu trabalho, as coisas que eu falo, que eu posto, sem cobrar nada, sem golpe (rsrs). É disso que eu falo quando falo da comunidade independente: é todo mundo por todo mundo, é parceria, é troca, como de fato deve ser uma comunidade, onde o sucesso de um é o sucesso de todos. Agradeço também pelo espaço cedido para que eu falasse um pouquinho de mim e da minha obra, mesmo ela ainda não tendo sido publicada. Como eu disse na nossa conversa, jamais vou esquecer isso: minha primeira entrevista como autor! Por isso, muito obrigado, do fundo do meu coração! Aos leitores, deixo um apelo: deem uma chance à literatura nacional. Eu posso garantir a vocês que tem muita gente incrível escrevendo obras da mais alta qualidade nesse país. Um grande abraço a todas, todos e todes!
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