O vento e o ruído dos pensamentos entrincheiravam as dunas de sal no antigo vale, e um caminhante atravessava, em silêncio, as fendas com passos cautelosos, o corpo e a face cobertos por um manto vermelho sangue, em contraste com a paisagem. Partindo dos seus pés, a cidade mais próxima ficava a mais de três dias, mas aquele ponto humano no meio do resoluto nada não buscava a civilização; antes, almejava ver no deserto a loucura e por fim o vazio, pois com um certo prazer sádico lambia o sangue que escorria do seu nariz como capturasse com a língua gotas de vinho de uma caneca transbordante. Já não se importava com as partículas de cristais de sal que feriam seus olhos.
Contido na fronteira de si mesmo, não poderia desejar lugar melhor para conspirar contra a base de seu cosmos, rebelando-se contra a pira da consciência para recolher-se de modo asceta ao abismo. Ali, na beira do mundo, o deserto era Deus, e sua carne era ungida em sua penitência eterna. Não havia estrelas no céu alaranjado; as nuvens fugiam da sina daquele espetáculo do inferno e, em dado momento, a sede de permanecer vivo do único a vaguear naquele relicário do mundo, também começou a escapar.
Chegou em um monte alto e fitou a lua negra subindo pelas montanhas do Leste. Deveria montar ali a sua tenda de couro para abrigar-se da noite. Levando o indicador ao céu, fez os sinais de Babel e saudou o Oriente para dormir no chão de sal dentro de sua cabana e, entrando pelo rasgo, trouxe consigo o vento, e selando a passagem, deitou-se no chão enquanto as partículas brilhantes desciam em um redemoinho suave sobre a superfície daquela terra salina onde nenhum altar foi erigido aos velhos deuses.
Veio a noite;
e os sonhos;
e então, Focalor.
Era uma queda de cem metros dos negros sinos das catedrais sombrias encrespadas no precipicio até o mar abaixo que torturava as rochas. Focalor, vila dos monges do além-mar, disfarçava-se com discrição entre as pedras do abismo sobre o qual foram construídas o mundo antigo; dizem, os que estiveram naquele esquecido vilarejo,que seus salões, mercados e templos eram adornados de tesouros da Síria e das Índias. Certa vez, no Concílio de Sidom, os batedores reais disseram a imperatriz de Taluha que não houve nem haveria jamais riqueza que os impérios do Leste pudessem conquistar que se comparasse a um simples vaso de plantas na cabeceira da cama de um pescador de Focalor, mas que lá ninguém se importava com isso, de modo que, pesando extensivamente os adornos de uma casa, lançavam aos peixes do mar revolto para que não afundasse todo o recinto. E havendo acúmulo, sacrificavam montes de brilho precioso ao velho Deus do Mar que dava nome ao pequeno povoado.
Soube o homem dessas verdades naquela fronteira do sono e do acordado, e os lábios abriram-se como se fossem dizer alguma coisa, mas não há o que ser dito. É sabido que a riqueza e o adorno do Oeste pertence a mistérios antigos; cavando a beira do mundo, nada pode-se achar sobre o que se faz e o que se diz abaixo da sepultura do sol. É o inferno real ou um cântico de falsa luz? Leviatã, o rei do Oeste, sabia.
Vira-se para a Norte.
Se põe de bruços.
Então, casa.
Os pensamentos o levaram para Focalor.
Havia um homem juntando ovelhas no aprisco. Ele cantava um hino antigo para o senhor do mar e soube que a tempestade virá. Não importava. Ele agradeceu.
Na beira do precipício dos gaviões que vieram para acasalar e descansarem as asas antes de seguirem para o Grande Oeste, é o lar de todas as coisas que um dia passaram por Focalor. Peças de cobre e incenso de sândalo saiam do povoado para serem vendidos nas vilas próximas, mas nada entraria, somente tesouros. Safira, rubi, lápis lazuli calçam os pés do pobre, e o cântico ininterrupto na língua infernal, entoados para o mar profundo, onde o velho Deus se agrada e entrega os peixes que serviriam de alimento.
Nas brumas do Extremo Oriente, certa vez quem jaz agora no chão frio viu:
Sete torres.
Sete luzes.
Sete sinetas..
Sete ventos.
Sete sinas.
Sete almas bradando como animais.
Na sétima torre, um homem em pé saudava o mar oculto; levantou as mãos e fazendo os sinais da profanação para o Sul, adorou o velho Deus do mar. Convicto no silêncio da besta, seu nome era “Io”, o adorador de demônios, e por sua boca tremia a terra e bramia o ar.
Had; eis o momento de afogar.

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