Perfil de Autorias #1: Raquel Terezani e as vozes da fantasia urbana

Boas-vindas à nossa primeira entrevista do projeto Perfil de Autorias do Escrever Literatura! Hoje, exploramos a jornada criativa de Raquel Terezani, que compartilha conosco os bastidores da sua escrita, seus maiores desafios e sua visão sobre o mercado literário atual.

Nascida no simbólico ano de 1984 e formada em Letras, Raquel é leitora ávida e escreve desde os 13 anos. Dividindo-se entre os papéis de mãe e esposa, ela navega pelos gêneros do romance, da fantasia urbana e ficção científica.

Confira a entrevista completa abaixo!

Autenticidade

Escrever Literatura: Em um mundo com cada vez mais rótulos literários, reciclagem de ideias e livros vendidos com dinâmicas já prontas, como você torna sua própria escrita autêntica e que conselho daria a outras autorias que também buscam autenticidade?

Raquel Terezani: Acredito que o simples fato de escrevermos o que temos vontade torna nossa escrita autêntica. Geralmente nossas primeiras histórias originais (depois da fase das fanfics) surgem porque nunca vimos uma figura protagonista de um jeito X, ou porque nunca lemos uma história com uma situação Y. Não tentar copiar abre um leque de possibilidades. Um extra: acrescente detalhes que só você faria. Por exemplo, no momento estou lendo um romance policial com fantasia urbana e mesmo no meio de toda a correria, as pessoas da narrativa têm fome, elas param pra comer. Parece bobo, mas é algo que eu sempre vou lembrar “essa pessoa que escreveu é aquela da pizza”. E ao responder essa pergunta, percebi que eu também acrescento detalhes na minha escrita que só eu escolheria: numa das minhas histórias quem protagoniza vai ao banheiro fazer xixi em diversos momentos e uma dessas pessoas inclusive tem pedra nos rins, o que ajuda/atrapalha numa situação bem importante da narrativa.

O peso das narrativas lucrativas

Escrever Literatura: Existe uma pressão brutal para criar narrativas dentro do que o mercado dita como lucrativo. Em algum momento da sua jornada, você já cortou um tema ou alterou o curso de uma história puramente pelo medo dela não vender? Como lida com essa questão em suas obras?

Raquel Terezani: Com certeza já passei por isso. Mas sempre que tentamos nos encaixar em algo no qual não temos as habilidades necessárias, as coisas não dão certo. No meu caso, quando eu só escrevia para o Wattpad e já tinha duas histórias com bastante visualizações, acreditei que eu precisava escrever um romance com hot. E esse é um tipo de narrativa que eu não tenho a menor capacidade para escrever e, portanto, não ficou bom e não atraiu a avalanche de pessoas leitoras que eu esperava. Ao entender o erro, revi a história, que ainda tem cenas de sexo, pois a narrativa pede, mas eliminei o exagero. Depois dessa situação, decidi escrever apenas o que eu sei que sou capaz e o que estiver com vontade de criar naquele momento. Para o bem ou para o mal, eu não tenho uma editoria me cobrando nada.

O sucesso alheio e a frustração

Escrever Literatura: Ao ver uma obra que você julgou ser tecnicamente mediana (ou até ruim) alcançar um sucesso estrondoso de público, como você se sentiu sobre sua escrita e o mercado? Como lidar com esse sentimento?

Raquel Terezani: Injustiçada, é claro. A primeira coisa que vem à mente é “ah se eu tivesse dinheiro para investir em marketing”. Depois eu enfio a inveja no bolso e sigo a vida.

O mito das regras inquebráveis

Escrever Literatura: Qual foi o conselho literário mais aclamado que você tentou aplicar, apenas para perceber que era uma grande armadilha para o seu processo?

Raquel Terezani: Polêmica: elaborar fichas técnicas detalhadas para os personagens. Mesmo fazendo um planejamento básico da minha história, é durante a primeira escrita que eu vou conhecendo meus personagens, entendo detalhes sobre a personalidade deles e vou criando características físicas e psicológicas úteis para a narrativa. Durante essa primeira escrita, eu vou completando minha ficha de personagem, que é simplesmente uma página cheia de anotações bagunçadas, mas que utilizo muito nas próximas versões. A única vez que tentei criá-los antes de iniciar a escrita, acabei encarando personagens artificiais e engessados. Admiro quem utiliza essa ferramenta, mas para mim não funciona.

O problema inverso à síndrome do impostor

Escrever Literatura: Em qual momento a teimosia, o excesso de confiança ou o apego à sua genialidade quase arruinou um manuscrito ou te distanciou do seu objetivo?

Raquel Terezani: Infelizmente (ou felizmente) não cheguei ao ponto em que o success me subiu à cabeça, portanto, nunca passei por uma situação dessas.

O medo do julgamento moral

Escrever Literatura: Em uma era em que uma autoria frequentemente é punida pelas atitudes de suas criações, você já puxou o “freio de mão” no desenvolvimento de alguém na história, deixando de explorar suas piores falhas morais, por medo de sofrer a antipatia moral do público? Ou seguiu em frente, mesmo com esse temor?

Raquel Terezani: Sim. Deixei de retratar situações que todas as pessoas sabem acontecer diariamente. Não por medo de sofrer com a antipatia de quem lê, mas sim por medo de ter uma obra banida das plataformas nas quais publico. Isso já me aconteceu. Essas plataformas e suas automatizações não verificam que, no decorrer da história, situações tidas como ruins não são romantizadas, mas sim são julgadas adequadamente. A contragosto, fiz alterações na história antes de republicá-la em outro lugar.

O choque de realidade

Escrever Literatura: Qual foi o choque de realidade mais frio que estilhaçou a visão idealizada que você tinha da profissão de escrita?

Raquel Terezani: Eu ia dar uma resposta diferente aqui, mas justamente na semana na qual recebi o convite para esta entrevista, recebi um outro choque, bem mais interessante do que o que eu ia contar. Escutei um episódio de um podcast em que uma pessoa que escreve e que eu admiro (li vários livros dela e considero a escrita impecável) disse que começou a escrever profissionalmente há apenas 6 anos. Ela é publicada tradicionalmente e conhecida no nicho dela. Na minha cabeça, se eu apenas continuasse escrevendo, fazendo alguns cursos, publicando minhas coisinhas, cedo ou tarde minha escrita melhoraria e o público leitor me encontraria. Não necessariamente através de uma publicação tradicional, mas eu conseguiria meu objetivo: vender livros e ao menos pagar tudo o que eu gasto com eles. Mas ela conseguiu isso em “apenas” 6 anos. O que eu estou fazendo de errado? O que está faltando? Percebi que sou tão iludida quanto a Raquel de 14 anos que, com páginas e páginas manuscritas escondidas em casa, jurava que seria descoberta por alguma grande editoria, na era pré internet. Se eu quero ser lida, preciso tomar atitudes e mudar como eu encaro a minha profissão.

A relevância do ofício

Escrever Literatura: Nos seus dias mais exaustivos, quando o mundo parece maior que os seus sonhos e a profissão soa como uma perda de tempo, o que te convence a continuar escrevendo?

Raquel Terezani: As vozes da minha cabeça, rs. Eu, como a maioria das pessoas que escrevem, não pago minhas contas através da escrita e eu poderia encará-la apenas como um hobby ou simplesmente abandoná-la. Mas não consigo, as histórias se formam na minha mente nos mais diversos momentos e, enquanto eu não as colocar no papel, não fico em paz. Pode ser que algum dia eu desista de publicar ou de me divulgar, mas sei que nunca vou parar de escrever.

Um pequeno dilema

Escrever Literatura: Se hoje você recebesse a garantia absoluta de que a história que está escrevendo agora venderia no máximo 50 cópias e não lhe traria um centavo de lucro ou fama, você ainda assim sacrificaria seus finais de semana e noites de sono para colocá-la no mundo?

Raquel Terezani: Sim. É o que acontece atualmente. E o que já aconteceu numa intensidade ainda maior, houve uma época quando eu digitava no celular, em pé no trem, a caminho do meu antigo emprego CLT por falta de outro tempo para me dedicar aos meus projetos. Repetindo a resposta anterior: eu não consigo não escrever.

A busca por conexão

Escrever Literatura: Qual foi a surpresa mais bonita ou o momento de alegria genuína que a sua própria história te proporcionou durante o processo criativo, fazendo você ter a certeza de que todo o seu esforço vale a pena?

Raquel Terezani: Durante o processo, os diversos momentos em que consigo escrever páginas e páginas num mesmo dia sem nenhum bloqueio são sempre mágicos. Toda vez que produzo bastante sinto uma sensação de dever cumprindo e penso “é assim que eu quero me sentir pro resto da vida”. Mas os melhores momentos acontecem depois, quando as poucas, mas maravilhosas pessoas leitoras, entram em contato comigo para dizer o quanto se divertiram ou se identificaram com a história. Isso nunca deixa de me surpreender e de me encher de orgulho.

O agora

Escrever Literatura: Qual sua opinião sobre o momento atual do mercado literário e editorial? Quais seus maiores incômodos ou esperanças?

Raquel Terezani: Estou encarando essa pergunta como duas coisas diferentes: mercado literário e mercado editorial. O mercado editorial tradicional, confesso, parece algo muito distante pra mim. Ainda não descobri o meu caminho até ele e ainda não tenho certeza se quero chegar até ele. Já o mercado literário, o público leitor, esse me enche de esperança. Mesmo as estatísticas insistindo que não há pessoas que leiam por aí, eu e minha bolha otimista acreditamos que sim. Minha juventude foi num tempo sem plataformas de leitura e publicação online, sem ebook e com pouco acesso a sebos e livrarias, que na época só vendiam fisicamente. Agora, mesmo com dificuldade financeira para adquirir livros, o acesso está mais fácil, ler gratuitamente também é possível, não só através de bibliotecas. Como diria minha falecida avó “no meu tempo não era bom, não, agora é que é”.

Indicação Literária

Escrever Literatura: Para encerrar nossa rodada de perguntas antes das suas considerações finais, gostaríamos de um pedido especial: indique um livro e uma autoria contemporânea que você recomenda!

Raquel Terezani: Eu indico Para Ana, com amor, da Larissa Siriani. Não é um romance romântico, nem pertence ao fantástico, mas esse livro me impactou muito. Fala sobre bulimia de uma pessoa gorda. Tem uma escrita maravilhosa! Para ler, refletir, torcer, solidarizar, enfim, recomendo demais! O relato me atingiu de tal forma que senti fome lendo; cada vez que quem protagoniza falava há quanto tempo estava sem comer ou descrevia o que estava no prato, os cheiros, etc., meu estômago era afetado. É bom destacar que não senti repulsa em nenhum momento.

Considerações finais

Escrever Literatura: Quais suas palavras finais que gostaria de deixar registradas aqui?

Raquel Terezani: Leiam, escrevam, não parem. Ainda tem muita história para ser inventada e para ser lida.

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Gostou de mergulhar nas reflexões de Raquel Terezani? O Perfil de Autorias é um espaço dedicado a dar voz a quem enfrenta as vicissitudes do meio literário, com todas as suas complexidades. 

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