7 dicas para usar (e usar bem) metáforas!

Uma boa metáfora pode dar aquele ar poético e o toque especial à história. No artigo dessa semana, trouxemos 7 dicas de como usar — bem — metáforas no seu texto.

Todos nós, no ensino fundamental e médio, aprendemos que a metáfora é uma figura de linguagem utilizada quando substituímos um termo por outro que não possui o seu sentido originário, criando uma ligação semântica antes inexistente ou, em outras palavras, quando dizemos uma coisa significando outra. Mas, para a escrita, a metáfora é mais que um conceito gramatical, é um importante instrumento de técnica literária.

O que uma metáfora pode significar para quem escreve?
A metáfora é a possibilidade de criar imagens, de moldar a imaginação, de tocar os sentidos de quem lê, uma fonte de riqueza para o texto.  Por exemplo, nas duas sentenças: “O monstro era muito grande” e “O monstro era uma montanha de carne”, a primeira é uma descrição denotativa e expositiva.Na segunda, percebemos que, com o uso da metáfora, conseguimos evocar uma imagem e trazer informação sobre o monstro — maciço, gigante e lerdo —,enriquecendo o texto.

Porém, se mal empregada, a metáfora pode também desvalorizar a obra, torná-la  amadora, clichê ou, no mínimo, preguiçosa.

Para a literatura, dominar a metáfora é um recurso essencial. Precisamos descrever e fazer com que o público experimente o texto em um nível profundo. Trabalhamos com a imaginação. E as metáforas ajudam muito a lidar com a imaginação.
Por isso, trazemos sete dicas de como trabalhar bem suas metáforas.

1 – Evite metáforas batidas e genéricas
“Ela era bela como uma flor”. Quantas vezes você já não leu ou ouviu isso? Bem, esse é um exemplo clássico de uma metáfora batida, ou seja, tão usadas que soam preguiçosas, repetitivas. Elas não atraem a atenção, parecendo que estão ali apenas para preencher um espaço.  As metáforas batidas empobrecem o texto, pois demonstram falta de empenho de quem escreveu em pensar um pouquinho mais sobre o que descrevia.

Continuando no mesmo exemplo: o que quer dizer ser bela como uma flor? Que era viva? Perfumada? Colorida? Qual flor? Que imagem concreta, ou que ideia específica essa metáfora dá sobre a personagem a que se refere? No fundo, quando paramos para pensar, ela não diz muito sobre quase nada. Uma metáfora sempre deve vir ao texto para dizer algo, passar uma ideia, um sentimento ou uma imagem. Se está sendo usada sem um bom motivo e justificativa, ela é desnecessária e está poluindo o texto.

Evite metáforas comuns e, principalmente, aquelas que não acrescentam informação, sentimento ou imagem com concretude. E procure intrigar a leitora ou leitor com a metáfora, usando comparações inusitadas, mas que façam total sentido dentro do contexto. “Era bela como o choque de duas nebulosas”, funcionaria bem melhor, especialmente considerando o tópico seguinte.

2 – Procure metáforas que sejam condizentes com a cena ou com a personagem que a está usando
Muitas vezes pensamos em uma metáfora evocativa, e queremos usá-la para aquele momento da história. “Ele tinha a beleza de um vulcão em erupção” pode parecer uma metáfora interessante, mas não será caso a história se passe em uma nave espacial, após uma fuga de um Terra destruída, viajando para outra galáxia há quatro gerações. Vulcões seriam coisas de livros de história que não fariam parte do imaginário popular dessas pessoas. Uma metáfora que destoa do cenário e do contexto pode afetar a suspensão de descrença da leitora ou leitor. No exemplo, se o narrador está procurando uma comparação com um evento natural que seja belo e aterrorizante, a frase “Era bela como o choque de duas nebulosas” funcionaria melhor.

Claro que o contexto da história pode e deve ser mais complexo. Digamos que o narrador seja uma personagem que é fascinada pela história e fenômenos naturais da Terra, especialmente vulcões. Isso foi desenvolvido durante a história. Nesse caso, seria cabível e não fugiria ao contexto o exemplo da beleza de um vulcão em erupção, pois estaria sendo usada por uma personagem para quem essa imagem, essa metáfora, significa algo e tem intensidade. É interessante pensar em usar metáforas que estejam dentro do contexto. Em uma história que se passa no mar, as metáforas podem ser aquáticas, molhadas, vastas, por exemplo.

3 – Use metáforas sinestésicas
“Quando nos aproximamos, senti em seus cabelos o cheiro do vento”. Observe a frase acima: nela, vemos a sinestesia, que é a mistura de sentidos que não são óbvios. Ou seja, quando você cheira uma cor, vê um sabor, tateia um som. A sinestesia é um grupo forte das metáforas, com uma pegada poética muito interessante, além de surpreender e intrigar a leitora ou leitor. Elas funcionam quando ajustadas ao contexto e, principalmente, à personagem que a sente. Escolha o sentido mais relevante para aquela personagem e a faça sentir a partir dele.

Faça correlações que possam dizer algo sobre aquela personagem, sua personalidade, suas vontades. Sentir o cheiro do vento nos informa, por exemplo, que sentido do olfato é presente na vida dessa personagem, e a metáfora do vento nos traz a ideia de liberdade e dos cabelos soltos. A sinestesia pode ser sua amiga. Abrace-a! Mas use com sabedoria.

4 – Tente ir além da metáfora
Metáforas significam algo. Elas dão um sentido mais profundo, uma polissemia para determinada passagem. Dizem sobre o estado de espírito, sobre o que a personagem vê e sente além do básico e descritivo. Quando você usa metáforas, você cria um vínculo entre aquelas imagens, entre aqueles significados com as suas personagens e os cenários. Aprofunde isso, faça com que a leitora ou leitor sinta essa ligação.

Use as metáforas para trabalhar esse aspecto poético e lúdico da personalidade, o sentimento de uma maneira tangível e singela, ou mesmo bravia e tempestuosa. Explore essa possibilidade. Isso pode dar profundidade ao texto. Apenas tome o cuidado de não exagerar. Tudo demais cansa.

5 – Não tenha preguiça ou pressa
Essa é uma dica bem direta. Não tenha preguiça em procurar a metáfora certa. Tente, pense, planeje. Procure a exata metáfora que você precisa para aquele momento, para a construção daquela cena. Isso pode levar um tempo e pode ser que você tenha que marcar a passagem e revisitá-la depois. Não tenha preguiça de procurar o melhor para o texto, mas também não tenha pressa para acabá-lo de qualquer jeito.

A escolha de uma boa metáfora exige uma ponderação e um conhecimento profundo do que se quer escrever. E tenha paciência para mudá-la quantas vezes for necessário.

6 – Revise e veja se realmente funcionou
Quase sempre, é mais trabalhoso revisar um texto do que escrevê-lo. As revisões podem se estender ao infinito, pois sempre haverá algo que você mudaria. Isso poderia ser uma dica geral: é preciso atenção redobrada para se certificar que a execução está boa.

Lembre-se, uma metáfora ruim é um caminho certo para desfazer a suspensão de descrença de quem está lendo. Por isso, é importante revisar e ter discernimento o suficiente para saber se sua metáfora, por mais linda que seja, está funcionando naquele contexto.

7 – Tenha desapego com sua metáfora
Imagine que você escreveu a melhor metáfora do mundo. Ela é perfeita, uma imagem belíssima, uma construção textual genial. Mas, ao lê-la na história, percebe que ela não se encaixa bem no contexto e, sinceramente, a leitura beta ou leitura crítica profissional também disseram que nem ficou tão genial assim.

Metáforas são um apelo ao emocional e à imaginação. Por isso, é fácil que nosso envolvimento, enquanto autorias, não nos deixe perceber que ela não é ideal, ou então, mesmo percebendo, achamos que pode passar, forçando um pouco a barra. É uma decisão difícil, mas é importante ter desapego. Deixe-a guardada em uma anotação separada.

Garantimos que ela pode ser útil eventualmente. Mas não a force em um texto que ela não está funcionando. Você não apenas vai estragar uma metáfora que gostou tanto, mas também vai deixar sua história aquém do que ela poderia ser.

No mais, divirta-se escrevendo. Algumas metáforas malucas também podem ser interessantes. E lembre-se, nenhuma regra ou técnica é imperativa. Você é livre para não usá-la, se assim achar melhor.

Tem mais alguma dica em relação às metáforas? Quer dividir seus truques com a gente? Deixa aí nos comentários =)

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