Passo pelo feed das redes sociais, curto posts patrocinados, dicas úteis, recortes de séries e filmes, pequenos esquetes de comédia, influenciadores literários ou de fitness, e aparecem eventualmente os de lifestyle (mesmo sem seguir qualquer um deles) e subcelebridades sobre as quais tudo o que sei é contra a minha vontade. Não vejo posts dos meus círculos de amizade, pessoas que conheço e de quem gosto, mas envio para elas memes na DM.
Imagino que você tenha se reconhecido. Vivemos um tempo de metamorfose acelerada em nossa forma de consumir cultura, o que engloba relações, conhecimento e artes. A literatura, nesse contexto, não é exceção. Ler nunca deixou de ser importante; é um hábito celebrado, tido como algo distintivo e digno de nota. Nunca se leu tanto, sejam as conversas nos grupos de WhatsApp, pequenos textos em posts, tweets (recuso-me a chamá-los de X, desculpe) a perder de vista ou legendas de vídeos que rolam infinitamente. Mas o excesso de informação cobra um preço na velocidade de processamento de nossas mentes.
A literatura, outrora um santuário de reflexão e narrativas robustas (não necessariamente longas), encontra-se hoje sob a mira de um fenômeno que não é apenas estético, mas profundamente estrutural: a “tiktokização” da escrita. A pergunta que nos assombra, e que deve ser feita com seriedade, é se estamos diante de um empobrecimento deliberado da nossa produção literária e da forma como estamos dispostos a adquirir essa cultura. Tornamo-nos apenas consumidores? Seria possível resistir à mediocridade quando todo o sistema de produção e distribuição exige que nos rendamos ao ritmo frenético do mercado, das redes sociais e do tempo virtual?
Largo o celular de lado após passar horas perdendo tempo com algo que não vou reter, mentalmente cansado demais para abrir um livro ou mesmo ver um filme. Revolto-me ao perceber como a ditadura dos algoritmos, a tirania da rolagem infinita e a sanha por engajamento estão moldando não apenas o conteúdo das redes, mas usurpando o espaço das páginas, das cenas construídas em roteiros estruturados e da boa história em ritmo, execução e tempo.
Não estou defendendo que o passado era melhor, mas é fundamental situar este debate para não cairmos em anacronismos ingênuos. A concisão literária não é uma invenção recente; os folhetins do século XIX já compreendiam a necessidade de capturar o leitor em doses semanais, garantindo uma leitura ágil. Contudo, a diferença reside na natureza da produção e na intenção por trás do texto.
O problema atual é a transposição brutal da lógica do lucro para o campo da ficção, a alienação da superficialidade e a abolição do subtexto. A escrita, submetida a essa dinâmica, passa a emular o “arrastar para cima”, tornando-se uma mera sucessão de estímulos vazios. Não se busca mais a construção artística ou o desenvolvimento humano, mas a manutenção de um estado de vício em engajamento, transformando o leitor em um simples consumidor de microrrecompensas.
Quando o objetivo é manter a audiência hiperestimulada a cada virada de página, a profundidade da obra é a primeira vítima. O enredo é sacrificado no altar do consumo rápido. Vemos o surgimento de uma urgência artificial, na qual os conflitos não escalam de forma orgânica, mas saltam de maneira desconexa ou excessivamente explicativa. O resultado é um paradoxo: a tensão desaparece justamente porque tudo tenta ser tenso o tempo todo. É como uma propaganda em um caixa de som berrando incessantemente; após alguns minutos, o ruído vira apenas barulho. Sem o silêncio e a construção paciente, a narrativa esvazia-se.
Precisamos identificar os verdadeiros inimigos. A “tiktokização” não é sinônimo de textos breves, mas da tentativa desesperada de bombardear o leitor com elementos desconexos para capturar sua atenção a qualquer preço. Ao transformar o livro em uma metralhadora de microestímulos, produzimos uma obra irremediavelmente medíocre, incapaz de sustentar um clímax real. A narrativa perde sua arquitetura e sua capacidade de ser algo maior do que a soma de suas partes fragmentadas. É a alienação do processo de leitura, que agora precisa de consciência para retomar o enredo que exige tempo para florescer. Para que uma personagem se desenvolva e nos conecte verdadeiramente, ou para que um mistério nos prenda a atenção, é preciso que possamos construir a história juntos a partir daquilo que nos é descrito.
É necessário espaço para o desenvolvimento, mas esse espaço é hoje ocupado pela produção massificada. As obras que resistem ao teste do tempo possuem uma arquitetura deliberada, com momentos de calmaria estratégica que preparam o terreno para tempestades devastadoras. Devemos resistir à tirania do algoritmo, que nos empurra ao sacrifício da cadência apenas por medo da obsolescência digital, mas não adianta negar sua existência. A literatura que realmente importa exige um compromisso de quem lê — um pacto que separa a fruição estética da descartabilidade da mercadoria. E não falo apenas de uma literatura tida como “séria”, mas mesmo daquelas histórias que nos acompanham como uma manta em um dia frio. O convite é revolucionário em sua simplicidade: escreva para ser lembrado pela história e pela qualidade, e não apenas para ser visualizado pelas métricas do capital.
A “tiktokização” pode ditar as regras do mercado hoje, mas a posteridade é um território que pertence a quem domina a técnica e a profundidade. Você já sentiu essa pressão insuportável de diluir sua própria voz para caber na ditadura da rolagem infinita? Como você tem lutado para manter a integridade da sua narrativa em tempos de hiperestímulo?
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