Espero a patinadora voltar para resolver o problema do iogurte. A compra soma cento e cinquenta e dois reais e trinta e três centavos, uma diferença de setenta e nove centavos entre o valor do produto na exposição e o valor que passou no caixa. Abro a carteira: meus documentos, os cartões e a foto três por quatro dele. Coloco de volta no bolso. Passo a mão sobre a boca, esfrego minha cara. Não sei assoviar. Tento sorrir para a garota no caixa.
Ela boceja e abre um sorriso, mas não oferece qualquer palavra. Eu mereço isso. São quase duas da manhã e crio confusão por menos de um real. Já tive problemas com diferença de preço neste mesmo supermercado. Eram só alguns centavos, eu dizia. Não vale a pena, vamos embora, ele insistia em ter o troco certo.
Já tinha pagado quando reparei no preço errado. Pedi o reembolso, a devolução. A caixa, não perguntei seu nome, não podia fazer nada. Não pode ficar assim, é meu dinheiro, falei. Senhor, eu não tenho como abrir o caixa e fazer isso, posso chamar o supervisor, mas deve demorar, é
turno da madrugada, ela disse.
Tenho tempo, respondi.
O supervisor chamou o gerente. Ameacei pedir o valor em dobro. O gerente, não sei o nome, pediu pelo alto falante para a patinadora averiguar o preço do iogurte.
Eu tenho tempo, repeti.
Estou insone. Em casa, tenho apenas o ventilador como companhia. Não quero ler, a televisão está com a tela quebrada. Não aguento mais mexer no computador. Deletei as redes sociais, meu celular nunca toca. Todos meus amigos ficaram com ele. É uma quinta-feira à noite. A demora da patinadora me deixa só. O gerente já saiu e o supervisor me encara de longe.
As caixas de remédios de tarja preta estão em cima da cadeira, mal iluminadas pela luz que escapa de uma fresta da porta do banheiro. Ao fundo, na penumbra, uma tela. Um autorretrato quase em tamanho real; minha imagem de costas com pontos ensanguentados nas omoplatas. O supervisor, queria ter perguntado seu nome, me encara como quem conhece esse quadro. Nos meus aniversários, sempre penso em jogá-lo fora. É uma decepção da adolescência, um lembrete de que nem todo pequeno gênio é talentoso.
Suspiro de cabeça baixa.
A patinadora demora.
Eu precisei levantar da cama. No banheiro, joguei água no rosto e estapeei minhas bochechas. Esfreguei os olhos e acendi a luz. Uma pilha de roupas no chão. Estiquei a mão para uma camisa qualquer e a cheirei. Parecia aceitável. Quem pensa a palavra aceitável, me pergunto, percorrendo os corredores do supermercado com os olhos , na esperança de vislumbrar a patinadora, qual o nome dela?, mas ela não chega.
Ajeito minha camisa. É uma noite quente. Em casa coloquei uma camisa grossa, e virei de costas para o espelho para me certificar pelo reflexo que a cicatriz escarificada em minha pele pálida não aparecia por baixo da gola da blusa. Não gosto da cicatriz, as pessoas perguntam dela e respondo que foi um acidente. Tudo é um acidente, eu disse quando nos conhecemos.
Resolvi fazer compras no supermercado. A madrugada sempre foi nosso horário favorito. Menos gente, menos problemas. Era perto o suficiente para irmos andando, bastava cruzar a parte de comércio e atravessar a avenida. Íamos juntos; ele adorava fazer compras.
Depois de três dias, pisei fora de casa.
Gastei dinheiro. Meu carrinho tem papel toalha, sabão em pó, uma caixa de cerveja, três lasanhas prontas, queijo mussarela fatiado, bananas e iogurte de morango. Tive o cuidado de verificar se era iogurte de verdade, e não bebida láctea: aprendi com ele.
O crachá da atendente diz Lucilene Soares. Quando ela suspira e alcança as sacolas abaixo da máquina registradora, permaneço imóvel. Lucilene é alguma coisa mais nova que eu, imagino que nos seus vinte e poucos anos. Deve estar cansada. Há quanto tempo já estaria naquele turno, e até quando iria seu horário? Para o que volta todos os dias, uma família, uma pessoa, um gato?
Eu sou um imbecil.
— Desculpa, muito trabalho por setenta e nove centavos, né?
Ela encara o monitor e ajeita as sacolas plásticas.
— Ah não, se tiver errado, você tem que reclamar mesmo.
Fala sem mover a cabeça, sem parar de ajeitar as sacolas.
No caixa ao lado, outra pessoa passa as compras. Uma mulher de meia idade, camisa branca e um xale roxo. Tira os produtos do carrinho, coloca-os sobre a esteira, nenhuma palavra, confere o preço no monitor cada item que passa.
As compras dela fazem sentido. Doze caixas de leite, quatro dúzias de ovos, algumas hortaliças, uma embalagem de seis quilos de carne embalada a vácuo, produtos de limpeza. Também escovas de dentes, fio dental, sabonetes. Uma daquelas pessoas precavidas, aquele tipo que compra tudo em conjunto de seis ou doze e não tem tempo a perder. É o tipo de pessoa que sempre brigaria por setenta e nove centavos, com a convicção que Lucilene falou. O tipo de pessoa que ele era. Eu não sei porque brigo.
Encaro os corredores, atento para a patinadora. Nenhum sinal dela no setor de frios ou de laticínios. Passo a mão no rosto e pego a carteira para ter certeza de que meus documentos estão lá, que a foto continua nela. Tudo está igual.
Encaro o teto de luzes brancas assépticas, tubulações gigantes de ar condicionado e vigas metálicas, altas o suficiente para ficarem invisíveis aos clientes no dia a dia, sólidas o bastante para suportarem o telhado. Um pombo cinza está empoleirado em uma das estruturas metálicas. Inclino a cabeça em sua direção, curioso. Como foi parar ali e como sairia? Não vejo janelas abertas por onde voar, não há passagens ou saídas.
Solto um riso, mais um bufar,e Lucilene me pergunta o que foi. Nada, desculpa, é tudo que consigo responder. Procuro outros pombos pelo teto. Vejo pessoas fazendo compras, todas sozinhas. Não há locutores nesse horário, apenas silêncios e rodas de carrinhos. Outra madrugada que ele não está aqui.
— Oi, sr. Isaque? Seu dinheiro.
Só percebo a patinadora quando ela me chama. Ela pergunta se a diferença de preço é setenta e nove centavos, e confirmo com a cabeça. Ela — não consigo ver seu crachá — e Lucilene fazem a dedução sem me dirigir outra palavra. Desvio o rosto para dentro do mercado, as prateleiras com doces logo à frente, a parte das bebidas pouco depois. Deveria ter comprado vinho em vez de cerveja. Minha geladeira vazia só tem caixas com restos de delivery. Não comprei nenhum legume, verdura, comida de verdade. Poderia ter comprado um único tomate com setenta e nove centavos.
A patinadora anota o valor em um papel junto com o cupom fiscal, guarda na gaveta do caixa, e me devolve oitenta centavos. Olho para as moedas, perguntando se os minutos que perdi valeram a pena. Guardo as moedas no bolso, sem abrir a carteira. A carteira, a foto três por quatro dele. Seis anos da minha vida entre vindas noturnas ao mercado, discussões sobre onde estava, o que fazia, com quem ia.
Procuro o pombo. Ele está dormindo no mesmo lugar. Faz três anos que apenas o Rivotril consegue me apagar. Trabalharei ainda, talvez, às duas da manhã. Tenho um projeto de site para dali dois dias que não comecei. É um site pequeno, de uma escola de bairro de outra cidade. Duas ou três horas e consigo finalizar. Já planejo o esquema das cores, a logística dos menus.
Poderia fazer coisas melhores do que esperar oitenta centavos. Fujo do tédio, queria poder dizer. Fujo demais. Eu não tenho coragem. São problemas idiotas. Meus problemas são pequenos. Não preciso trabalhar às duas da manhã. Sou um rapaz mimado e privilegiado, ele disse. Tinha razão. Todas as desconfianças, as minhas juras de amor, ele havia dito que não aguentava mais, vá embora, eu gritei.
A mulher do caixa ao lado já vai longe, descendo a esteira rolante, um ponto roxo com um carrinho cheio. Ela não olha para trás, não me encara, não vai se lembrar de mim. Pego minhas compras. São quase três da manhã, telefono para ele, com essa serão oitenta chamadas não atendidas.
— Obrigado, viu? Boa noite para você. — Falo para Lucilene. Não sei onde está a patinadora.
Queria tê-la chamado pelo nome, mas não tenho coragem. Tento sorrir, mas não espero nenhuma resposta. Dou dois passos.
Viro.
— Desculpe — E ando rápido.
FIM

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