Excelência literária e escolhas conscientes

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Você decidiu que deseja seguir carreira na escrita. Ciente das dificuldades desse cenário e mercado, para além do talento e inspiração, é preciso outras ferramentas, dentre elas, aprender a escrever literatura.  Existem cursos prometendo um saber secreto e imbatível para a produção de um best-seller, livros sobre escrita com a fórmula mágica para produzir grandes…

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Você decidiu que deseja seguir carreira na escrita. Ciente das dificuldades desse cenário e mercado, para além do talento e inspiração, é preciso outras ferramentas, dentre elas, aprender a escrever literatura. 

Existem cursos prometendo um saber secreto e imbatível para a produção de um best-seller, livros sobre escrita com a fórmula mágica para produzir grandes obras e, especialmente, sites e blogs dedicados a mostrar a maneira certa de se escrever.

Por isso, é importante começarmos por algo que, muitas vezes, se perde no caminho: não existe regra absoluta na criação literária. Aprender a técnica e estudar sobre escrita são importantes ferramentas a qualquer pessoa que deseje tornar isso uma profissão, mas também é preciso considerar que, ao dominar seu texto e estilo, muitas vezes se comete “erros” propositais — contrários às técnicas usuais de escrita — e, justamente por causa desses erros, pode fazer algo genial. Isso é o que chamarei aqui de escolhas conscientes.

Escolhas conscientes são muito relevantes para qualquer profissional de escrita. E saber fazê-las é essencial para aprimorar ainda mais a qualidade dos seus textos. Mas como fazer escolhas melhores e no que isso ajuda a alcançar maior excelência na sua produção literária? Eu não tenho essa resposta, é claro, mas posso falar um pouco da minha experiência e, torço, que ela possa ser útil para você. Confira a seguir!

As motivações da escrita

Em geral, começamos a escrever por prazer. Mas a explicação do que nos leva a ter esse prazer na escrita varia bastante.  Algumas pessoas adotam um clichê como mote de vida e sentem que vão morrer caso não escrevam. Existem aquelas que têm uma espécie de êxtase catártico ao criar uma história, enquanto, para outras, escrever é um ato natural como respirar — simplesmente escrevem, pois é da sua natureza. Há também aquelas que apenas gostam de escrever, sentem-se bem e quem acredite que é uma profissão interessante com potencial de retorno financeiro.

Descobrir o porquê se escreve é uma excelente discussão de bar, mas a conclusão é que existem tantos motivos quanto pessoas que escrevem. Escrevemos. Sejam poemas que ficarão eternamente na gaveta, fanfics para círculos íntimos, livros infindáveis que jamais ficarão prontos, histórias para jogos de rpg ou contos e romances que planejam publicar para serem famosas e reconhecidas.

Nosso imaginário popular tem uma concepção de que todo o trabalho artístico advém de uma inspiração divina, de algo intocável e indescritível. Pode ser que muitas obras artísticas comecem assim. Mas, para realizá-las com qualidade, artistas estudam e trabalham muito. Com a escrita, não é diferente. Não somos médiuns psicografando histórias de musas metafísicas, e sim pessoas que, sob um momento de inspiração — ou mesmo na falta dele —, produzem uma obra literária.

É muito comum o debate, especialmente dentro dos círculos literários, sobre o que é mais importante: uma boa história ou a forma do texto. Isso leva em conta a defesa que uma boa história pode ser mal executada e ainda assim despertar a atração do público, ou que uma a forma pode transformar uma história banal em uma peça escrita sublime.

Ao meu ver, essa é uma falsa dicotomia, pois o conteúdo e a forma não são excludentes, mas ao contrário, se beneficiam mutuamente.  Uma boa história só tem a ganhar com uma excelente execução.

Acredito que, para que um texto seja genial, não basta apenas ser transcendentalmente inspirado. Também deverá ser fruto de trabalho duro, de sucessivas revisões bem feitas, de uma produção consciente. E para se fazer escolhas conscientes é preciso ter um profundo senso de autocrítica e conhecimento técnico.

A técnica literária

Considero que as técnicas de escrita são ferramentas úteis. Em uma analogia, assim como profissionais de medicina da cirurgia usam o bisturi e conhecimento do corpo humano, nós — autorias — usamos a língua escrita. Assim como pessoas cirurgiãs possuem diferentes técnicas de abrir e fechar corpos, a depender do que desejam fazer, temos técnicas literárias que nos ajudam a escrever melhor. E quanto maior o domínio das nossas ferramentas, maior é nossa consciência de escolhas textuais e, portanto, nossa habilidade de quebrar e torcer essas mesmas ferramentas, alcançando outro patamar.

Por isso julgo muito importante o domínio dessas técnicas, para que possamos fazer escolhas conscientes em nossa produção textual.

Retornando à comparação, para se escrever bem é preciso conhecimento. Idealmente, alguém que procede com uma cirurgia estudou medicina, fez residência médica na área e especializações consecutivas. Sabe empregar instrumentos cirúrgicos e conhece a anatomia humana. Essa pessoa teve preparo, aprendizado, experiência e técnica. Ao nos submetermos a uma cirurgia, confiamos nisso. Por que não exigirmos o mesmo de nossas autorias?

Na verdade, há quem exija. A crítica tem esse papel e nós, na posição de lê, conseguimos quase sempre diferenciar uma peça excelente de uma obra escrita sem cuidado. Claro que precisamos considerar que o gosto dos diferentes públicos se adequa a esta ou aquela autoria. Temos públicos os mais diversificados e, na condição de quem produz arte, a nossa excelência não é tão imediata e vital — no sentido mais visceral da palavra — quanto a de quem performa uma cirurgia. Ninguém vai morrer por ler um livro ruim. 

Por isso, ao consumirmos livros, nem sempre prezamos pelo mesmo grau de excelência que esperamos de profissionais em outras áreas. Mas boas autorias contam com a exigência de um segmento de público que demanda qualidade e apuro literário, e também são exigentes consigo mesmas. Por isso buscam sempre melhorar e aprender, para se tornarem mais capazes naquilo que fazem. Afinal, a literatura pode não salvar vidas doentes, mas tem outros papéis tão importantes quanto: contar e preservar histórias, mudar paradigmas de pensamento, modificar sociedades. Ou, pelo menos, ajudar pessoas em momentos difíceis.

Esse aprendizado e busca pela excelência podem ser alcançados por meio de  estudo acadêmico e sistemático das diversas técnicas de escrita, leituras atenciosas às construções textuais de grandes obras, autocrítica e abertura à crítica alheia. Não é por acaso que quase toda grande autoria dá o mesmo conselho: leia e escreva. Escrever é um aprendizado constante, e quem escreve aprende algo de todas as fontes. Profissionais da escrita sempre estão aprendendo, pesquisando e criando. E tentando, cada vez mais, produzir textos com escolhas conscientes.

As escolhas conscientes

A imensa maioria das escolhas que fazemos são automáticas. Internalizadas por toda uma construção social, de personalidade e psicológica. São escolhas decididas sem pensar muito e que fazemos de maneira mais ou menos inconsciente. Isso se aplica na escrita. Em geral, quando escrevemos, apenas repetimos estruturas, clichês e leituras, raras vezes nos preocupando com a forma de cada frase e a integridade geral do texto.

Uma escolha consciente é saber porque se está usando determinada palavra, ou porque determinada estrutura textual está sendo empregada e porque ela é melhor, para aquele trecho, do que outra. É perceber quando uma metáfora ou comparação está sendo condizente com o cenário ou com a personagem do ponto de vista da narrativa. É empregar conscientemente um dos tipos de narração e focalização, saber o porquê dessa escolha. É resolver que, naquela passagem, usará o recurso narrativo de contar em vez de mostrar.

As autorias alcançam a excelência não por dominarem as técnicas de criação literária, mas por, conhecendo-as e dominando-as, conseguirem torcê-las para empregá-las de uma maneira diferente — ou mesmo escolhendo ignorá-las. Essas pessoas, mais do que domar, dialogam com suas obras. Procuram caminhos para contar uma história da melhor maneira, encaixam a palavra certa e usam ou deixam de usar quaisquer recursos que tenham em seu arcabouço.

Na imensa maioria dos casos, autorias que não fazem escolhas conscientes são reféns de suas obras, e quando as lemos ficamos com uma impressão inconclusiva sobre o texto, algo como “é até bom, mas poderia ser melhor”. Por outro lado, quando se aferram a essas ferramentas como regras axiomáticas e eternas costumam se limitar e não conseguem pensar fora da caixa. Mas quando você escolhe a palavra certa e lê a frase em voz alta… Há poucas sensações melhores no mundo para quem escreve.

Fazer uma escolha consciente de escrita requer prática, atenção e conhecimento. Também é muito útil pedir ajuda para outras autorias, em leituras betas e ter atenção às críticas. Ler com atenção outras pessoas e identificar as escolhas delas pode ser um excelente exercício. Ao fim, se resume em ter autocrítica.

Suas escolhas de escrita são conscientes? Tem alguma outra dica para fazer melhores escolhas de escrita? Conte para a gente.

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